Depois que desistimos da escola, voltamos para o estacionamento da drugstore, que já tinha virado nossa segunda casa, já que nos sentiamos mais seguros lá. Continuamos procurando gasolina pela cidade e pensando no que fazer pra se proteger dos tremores secundários. Durante toda a tarde ouviamos noticias pela radio japonesa, que ainda era a principal fonte de informação, visto que o sinal dos celulares ainda estava dificil de se obter, alertando sobre novos tsunamis, e apesar de morarmos longe do mar (cerca de 30 km) eu pensava que por morarmos na beira de um lago (um dos maiores do Japão) algo poderia também nos afetar. Até hoje não sei se isto é algo concreto ou pura ignorancia, apesar dos japoneses afirmarem que não havia perigo nenhum de um tsunami em nossa cidade. A saber, a antiga fábrica onde trabalhei, que fica na beira do mar (levava uma hora e meia todos os dias, de trem, para chegar no trabalho, foi inundada, mas não na proporção do que foi divulgado na mídia sobre os tsunamis na província de Myagi. Como disse várias vezes, aqui só pegamos as rebarbas da tragédia)
O tempo estava ficando feio neste momento, e ameaçava uma chuva forte, com vento e isto tornava mais sinistra nossa situação. A boataria, sempre a boataria, neste momentos só prejudica, que raiva eu tenho de boato, e o pior é que vc entra no esquema sabe? Diziam que teriamos um tremor secundario tao forte quanto o primeiro, e isto que deixou a gente mais assustado. Neste exato momento, a radio japonesa informa que todos os postos de gasolina fechariam as 15 h, porque ainda não sei, mas pensamos…..eles estão se preparando pra algo.
Numa das raras vezes que conversamos com amigos, por telefone, um deles disse que sua irmã via, na sua cidade, fogo em uma refinaria de petroleo, o que nos mostrou que teriamos problemas serios de abastecimento nos dias que se seguiriam. Resultado, panico total!
A tarde passou e não tivemos tremores fortes. Teve sim, mas nada se comparado com o que haviamos passado. Orei muito e Graças a Ele o dia que amanheceu como um ‘mini 2012′ terminava ‘tranquilo’, se é que pode se dizer isto. Fomos nos apartamentos trocar de roupa, pegar mais utensilios e alimentos, ver os estragos mais uma vez. Aproveitamos para arrumar um pouco as coisas. Vontade de voltar a normalidade.
Com a progressiva melhora de conexão dos celulares, consegui falar com uma amiga japonesa (obrigado Naoko), que conhecemos no Brasil anos atrás, e que mora em Okinawa. Pedimos para que ela conectasse a internet da casa dela e nos transmitisse notícias. Assim fomos ficando um pouco mais tranquilos, na medida que soubemos que o alarme de tsunami havia cessado.
Preparando os carros para mais uma noite…
Caminhão que afundou no asfalto devido ao terremoto, bem na nossa rua.
Minha primeira refeição além de chocolate (só o que havia comido até o momento), ovos cozidos em uma panela que esquentamos com o estobo (aquecedor a querosene).
Mais uma vez dormimos no estacionamento de sempre, e acordei achando que já eram 4 da manhã, quando na verdade ainda eram nove horas da noite. Havia dormido apenas 2 horas. Mais tarde, tivemos que ir no banheiro e voltamos pra casa, já que nada estava aberto, nada funcionava. A casa ainda tremia de vez em quando, e por isto iamos rapido, um por um, com lanterna e saimos correndo pra fora, rssss! Detalhe, isso tudo sem água.
Parece que a luz voltou em muitos lugares, progressivamente. Mas nossa cidade ainda está às escuras. Seguimos para a cidade vizinha onde há energia, à procura de comida, informação e luz, porque a escuridão da cidade incomoda demais. Deixa tudo mais abandonado, mas crítico. Sentei-me no pátio de uma loja de conveniencia (que não tinha água no banheiro nem pra beber) e escrevi um pouco mais do que está neste relato.
Bom ver luz!
Ainda não já água…Fomos ao mercado procurar comida e quase não havia nada. Surreal procurar coisas em prateleiras semi vazias, enquanto o mercado inteiro tremia com mais um tremor secundário, mas ninguém nem se importou nem se assustou. O tremor de sexta deixou a gente anestesiado com estes menores. Sentei-me no patio do estacionamento e comecei a arrumar as coisas da minha mochila de sobrevivencia, buscando talvez organizar os pensamentos, não só os utensilios que carregava.
Conseguimos plugar um notebook (que estava sem bateria) a uma lpja, na verdade, roubamos energia sem ninguem perceber, e só assim tivemos acesso total a internet. Deixei um recado no msn avisando minha mãe de que estavamos bem e assistimos pela primeira vez as imagens de Sendai. Do terremoto e do tsunami através de um programa de televisão peruano, similar ao nosso Jornal Nacional. Ficamos impressionados com o que vimos.
Dormimos novamente no carro, com as costas quebradas já.

